Histórias Obscuras – Capítulo 1

Era uma noite comum de jogatina, fazia frio e podíamos ouvir a brisa se intensificando por entre a folhas das árvores, a lua, por sua vez, estava em sua meia forma, esplendorosa como sempre e rodeada de estrelas. Por esta hora já haviam acontecido dois assassinatos, um suicídio e Henrique escreveu seu testamento…

Quem nunca jogou Black Stories não sabe do que estou falando.

Black Stories é um delicioso Card Game no estilo “Detetive” onde apenas o mestre sabe sobre o acontecimento e através de um enigma, os outros jogadores têm que ir montando a trajetória da determinada tragédia.

Eis que depois da última carta jogada na noite, me veio a ideia: FAREI UM LIVRO COM 50 CONTOS CURTOS DE TERROR PSICOLÓGICO. (O jogo contém 50 cartas, cada uma com um enigma macabro) no melhor estilo Edgar Allan Poe (AMO *_*).

E decidi que, a cada 10 escritos, publicarei um aqui no site, para não dar spoiler de todas as cartas e quem gostar do conteúdo, poderá comprar o livro quando ficar pronto ^^.

Dentro desta ideia, o grande senhor Tany (Rafael Tanisho) resolveu fazer uma coluna “estepe” para o site, onde aleatoriamente, integrantes e convidados do Locomotiva poderão expor contos, relatos e afins, dos ápices do horror. 😀

Hoje, fiquem com o primeiro conto de meu projeto “Histórias Obscuras” e tentem ficar em paz…

Boa noite, crianças.

DE COLHERADA EM COLHERADA

Ter como despertador as explosões e tiroteios, os gritos de aflição e agonia dos desprovidos de sorte que não apreciarão o próximo nascer do Sol… Uma rotina, onde reina o medo e a angústia de que, a cada volta que o relógio completa, por ventura desventurada, possa ser o próximo a fechar os olhos para nunca mais abri-los.
3Tempos de guerra são sempre difíceis, na mais dura conotação da palavra. E, o que vem depois? Depois que os homens sedentos de sua fúria, banhados por sua razão animal, terminam o doentio fado de arrancar das entranhas os derradeiros sopros de vida de seus companheiros de espécie que iam contra seus ideais?
Sobram os vestígios de devastação e o cheiro de pólvora por todos os lugares, sobram feridos, sobram traumas, sobra pobreza. E o que falta? Bom, falta um pouco de tudo, inclusive de esperança.
A família Wetterich soube disso em suma miséria, após a guerra, tiveram que se instalar em um abrigo para sobreviventes e viviam nas mais precárias condições. Como estas alocações ficavam distantes umas das outras, por medidas de precaução e disponibilidades de local, não haviam como partir de um sistema social ou mesmo interação com outras pessoas. A água se fazia escassa, então era inevitável que a imundícia não se fizesse presente nos corpos e no âmbito ao qual residiam, a comida, por sua vez, era pouquíssima e vinha por correio, em pacotes a mando do exército ou de seus familiares distantes, apenas um por mês, logo, o desperdício era inadmissível e a partilha era igual para cada um, nem a mais, nem a menos, para pai, mãe, filho e filha.
5A magreza e palidez se firmaram residentes em pouco menos de um ano, a rotina dos pais era de alimentar os sonhos dos filhos enquanto seguravam as lágrimas de desespero por terem os seus jazidos pela falta de esperança…
– Mamãe! Mamãe! Quando tudo isso passar, podemos ir à praia de novo? Noite passada, sonhei com o mar e lembrei o quão foi divertido correr atrás daquela bola na areia quente e até senti o gosto dos hambúrgueres que assamos para o almoço!
– Claro que iremos, pequena! Logo, logo, as coisas melhorarão, seu pai poderá trabalhar e nossas primeiras férias serão na praia e você e seu irmão comerão hambúrgueres até enjoarem! – Dizia a mãe como resposta, enquanto olhava ao redor e via os cômodos vazios, cheios de poeira e o ar pesado que respiravam devido ao ambiente pós-guerra, segurava suas lágrimas por se sentir impotente; nunca, jamais pensou que seria assim.
O pai, por sua vez, tinha que ocultar seus acessos de raiva perante a situação, se sentia um inútil em não poder fazer nada, se lembrava da promessa de união com sua esposa e os dizeres de proteção, qual deixara explícito que não faltaria nada para sua família.
Porém, tinham que se manter unidos, sabiam disso, amavam seus filhos acima de tudo e esse era o único propósito qual não os deixara desistir da vida.
Lembravam-se dos parentes e de como deviam gozar de saúde e de fartura no momento, liam as cartas que recebiam com saudade e gritos de socorro que eram trancados pelo silêncio dentro de si. O tio Richard e aquele cachorro babão que sempre pulava no nosso colo, a prima Alice que falava sem parar de seu emprego na Bolsa de Valores, a vovó Martha, tão velhinha, que ficava se balançando na varanda com sua
cadeira e alisando o Risonho, o gato cor caramelo que só gostava dela. O primo Charles, a cunhada Leonore, até a vizinha Cherily que vivia fofocando da vida alheia, lhe traziam vestígios de uma gigantesca nostalgia.
O correio só funcionava uma vez por mês para onde estavam, então quando recebiam o pacote de alimentos, o mesmo era divido para os dias e as bocas. Há dois meses foi Natal, a prima Alice enviara um galináceo gordo que dera para duas semanas de refeição, junto, mandara também algumas latas de comida em conserva que serviu para o restante do mês. A refeição mais comum era comida enlatada, devido seu longo tempo de validade.
A época mais temida estava por passar, o inverno e a neve não são tão agradáveis quando se tem o corpo debilitado pela falta de nutrientes e a comida havia acabado. O correio, mais uma vez, atrasara sua entrega.
Eis que, ao entardecer, a porta soa em tom grave as batidas do lado de fora, a família tem seu coração acelerado e como uma matilha faminta em busca dos restos de qualquer coisa, espreita a porta enquanto o pai recebe o pacote, em seu incessante agradecer ao entregador, costume de suplica que se pega nestas condições.
Sentam-se esperançosos ao redor da mesa, será sua primeira refeição de dias. O pacote trazia o remetente de Kansas, ou seja, era encomenda mandada pela vovó Martha. O barulho do papel sendo desembrulhado se confundia com os urros que vinham dos estômagos dos quatro, ao abrir, deparam-se com uma singela caixinha, qual abrem ansiosos entre cruzar de olhares…
4– Vitaminas! Aquela velha nos mandou vitaminas?! – Dizia exaltado sem conseguir esconder sua indignação.
– Essas avós e sua mania de serem avós, pensam em tudo! Sempre pensando no nosso bem… – Indaga a mulher enquanto acalma o marido para não assustar as crianças.
Restava aceitar as condições e pedir força aos céus para enfrentar mais um mês de dificuldade extrema.
A mãe sugeriu que tomassem a vitamina diluída em água por sua textura granulada minúscula, mas o pai impôs que tomassem uma colher por dia, pois tinham que mastigar alguma coisa. E assim foi, de colherada em colherada, dia após dia.
Com duas semanas mais passadas, sentiam-se fracos, cada um pensava em dizer que não aguentava mais, mas reclamar não iria adiantar nada.
– Pai…. Isso tem gosto de pó! – Dizia o filho.
– Desculpe filho, mas é só o que temos. – Respondia o pai de cabeça baixa evitando os olhos de seu primogênito.
Certa vez, na hora da “refeição” a filha teve um ataque de fraqueza e desmaiou. Coisa que já era comum acontecer com qualquer um dos quatro, porém ela derrubou sua colher cheia. O pai juntou os vestígios do chão e, o que parecia pó agora estava junto com poeira do assoalho que não podia ser limpo por economia de água, em prantos, quando a filha voltou aos seus sentidos, deu-lhe na boca como prato principal.
Engasgavam, tossiam, torciam a face, mas não podiam desperdiçar seu único alimento.
O mês, até então mais difícil, passou e a família lembrara os momentos bons que viviam há menos de dois anos, quando podiam ir ao supermercado toda semana, ou mesmo brincar na praça central da cidade, assustar os pombos desavisados, dormir rápido embalados em sono brando sem ter que se coçar durante toda a noite… Apesar de tudo, estavam unidos.
O correio batia, porém, quando a porta foi aberta, o entregador se fazia respeitoso e cordial ao pronunciar-se:
– Meus sinceros pêsames. – Finalizava a mórbida frase enquanto entregava para família um envelope.
A carta continha em seu remetente “Nota de Óbito”, a família, se olhando, sem entender o que já estava explícito, reuniu-se ao redor do pai, que rasgou o envelope e, tremendo de fraqueza, leu em voz alta:
“O governo de Kansas deseja seus mais profundos sentimentos aos familiares da senhora Matha Fehn Wetterich, que falecera com seus 86 anos de idade, como pedido, seu corpo foi cremado e as cinzas enviadas para a família”
A carta caíra no chão e o que parecia silêncio, enquanto olhavam-se pai e mãe estagnados, eram na verdade a falta de condições físicas para gritar seu horror no momento. Não sabiam o que era mais aterrorizante, o fato de que, de colherada em colherada, haviam comido a avó inteira, ou que o correio já não voltaria mais este mês.

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